UM SONHO CHAMADO COHOUSING

Imagine um grupo de amigos, acima dos 50 ou 60 anos, desfrutando de um frequente convívio social. Ainda que a idade avance, limitando a mobilidade, eles se mantêm próximos uns dos outros, em espaços pensados por eles e para eles mesmos.

Envelhecer, tendo seus amigos como vizinhos e podendo contar com eles, é um sonho que já virou realidade em muitos países. Esse sonho é conhecido pelo nome de Cohousing-Sênior.

Não se trata de um condomínio para idosos, mas de uma “comunidade residencial intencional, construída pelos próprios moradores”, conforme define Charles Durrett, o arquiteto americano que mais estudou as características das comunidades-cohousing dinamarquesas. Além disso, projetou e acompanhou a construção de quase 60 comunidades-cohousing nos Estados Unidos e no Canadá.

Foi na Dinamarca que a Cohousing ganhou popularidade, inicialmente entre casais jovens com filhos, devido ao seu caráter cooperativo. Assim, quando o pai e a mãe estivessem trabalhando, simultaneamente, os filhos poderiam ser supervisionados e cuidados, num sistema de revezamento pelos adultos que não estivessem trabalhando naqueles dias.

Outra grande inovação foi a criação do sistema de revezamento de equipes para a compra de alimentos e preparação de refeições para todos os moradores, no refeitório da “Casa Comum”, outro grande diferencial dessas comunidades. Cada equipe, uma vez a cada cinco semanas, além de cuidar da compra e preparação das refeições, também era responsável pela limpeza da cozinha comunitária. Essa inovação liberou as mulheres da maior parte do serviço, associado à “segunda jornada”, que elas passaram a assumir, ao ingressarem no mercado de trabalho.

A Casa Comum, além da cozinha e do refeitório, também podia contar com sala de estar, de estudos e também de recreação, tudo supervisionado pelos próprios moradores em sistema de rodízio. Isso aumentou muito a qualidade de vida e a segurança dos habitantes das comunidades-cohousing multigeracionais. À medida que as crianças foram virando jovens, às vezes mais barulhentos e energéticos, os moradores mais velhos dessas comunidades multigeracionais, resolveram optar por cohousing-sênior, onde a idade mínima dos moradores é, geralmente, de 50 anos.

ENTENDENDO O QUE É COHOUSING

De acordo com Charles Durrett, “cohousing é uma comunidade intencional, formada por pessoas que decidem morar em um mesmo ambiente físico, no qual o terreno, as construções e as demais benfeitorias existentes constituem-se em meios de integração e convívio entre todos os moradores, permitindo e promovendo uma vida comunitária intensa, mas sem impedir que cada morador tenha uma vida familiar de forma privativa.” Toda cohousing possui, em comum, características essenciais, que definem este tipo de comunidade. São elas:

  1. Processo participativo: Os moradores participam do planejamento e do projeto arquitetônico, assim como ajudam a organizar a administração e manutenção da comunidade constituída; são também responsáveis, como grupo, pelas decisões finais.
  2. Projeto intencional de vizinhança: O projeto físico estimula um forte senso de comunidade.
  3. Instalações comuns: As áreas comuns constituem-se em meios de integração e convívio entre os moradores e são projetadas para o uso diário, incluindo as Unidades Habitacionais.
  4. Gerenciamento pelos moradores: A cohousing é gerenciada pelos moradores, que tomam decisões de interesse comum nas reuniões comunitárias.
  5. Estrutura não hierárquica: As responsabilidades pelas decisões são compartilhadas por todos os moradores.
  6. Recursos financeiros pessoais e independentes: A cohousing não é fonte de recursos financeiros para seus moradores; estes administram e mantêm os seus rendimentos de maneira independente.

VIVENDO MAIS E MELHOR

O governo da Dinamarca, à medida que o tempo foi passando e o número de comunidades-cohousing para adultos-sênior foi aumentando, passou a ter estatísticas confiáveis. Constatou, por exemplo, que esses moradores iam menos ao médico, tomavam menos medicamentos, vivam oito anos a mais que a média da população e, além disto, tinham baixíssimos índices de demências senis e de Alzheimer.

A partir dessas descobertas, o número de comunidades-cohousing para adultos-sênior, criadas na Dinamarca, superou o de multigeracionais. Essa tendência vem se repetindo nos Estados Unidos e em vários países da Europa. Na Suécia, conceitos de cohousing foram incorporados aos projetos públicos de habitação social, beneficiando milhares de pessoas. Hoje, comunidades-cohousing são encontradas também na Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Espanha, Austrália, Coreia e no Japão.

Segundo Charles Durrett, essas comunidades-cohousing para adultos-sênior estão se tornando cada vez mais populares porque estas pessoas estão motivadas a criar um ambiente, para elas mesmas, onde:

  • conhecem seus vizinhos,
  • preocupam-se com eles
  • e oferecem e recebem suporte de seus vizinhos.

Durrett (https://www.youtube.com/) afirma que, cohousing é a melhor alternativa àquela ideia que muitos adultos-sênior têm: “viver na minha casa atual até não poder mais e aí vou para uma instituição para idosos”. É a opção para quem quer continuar se desenvolvendo, vivendo a vida plenamente e de maneira independente num ambiente que é mais prático, descomplicado, com certeza, mais econômico, mais divertido, mais interessante e mais saudável do que aquele que qualquer instituição poderia criar. Essa comunidade, altamente funcional, é construída, decisão a decisão, num processo que transforma seus membros em pessoas capazes, proativas e colaborativas umas com as outras. Além disso, em cohousing, pessoas com limitações podem viver, de maneira independente, com capacidade funcional e alto engajamento comunitário, uns 10 anos a mais do que se estivessem morando num outro ambiente.

Hoje, cohousing-sênior pode ser reconhecida como um projeto de engenharia social, que tem por objetivo promover a qualidade de vida e a saúde dos moradores, por meio da maximização da interação social, da participação, da solidariedade e do apoio mútuo, da cidadania ativa e do respeito ao meio ambiente.

É, com certeza, a melhor opção de moradia para adultos-sênior, que responde às grandes mudanças do século 21, entre elas, as seguintes:

  • Aumento no número casais com um só filho ou sem filhos.
  • Explosão no número de pessoas que vivem sozinhas.
  • Muitos pais, quando envelhecem, não podem mais contar com a proximidade dos filhos, pois estes se mudaram para outros lugares em busca de trabalho e oportunidades.
  • Aumento da longevidade, que permitirá à atual geração de adultos-sênior viver, em média, 30 anos a mais do que seus avós.

Além da Dinamarca e dos Estados Unidos, outros países da Europa, como Suécia, Alemanha e França, adotaram modelos semelhantes. Em 2017, a Grã-Bretanha inaugurou sua primeira cohousing para adultos-sênior; outras estão em processo de implantação. Além disso, alguns elementos típicos de cohousing, tais como áreas e atividades comuns, passaram a ser incorporados em empreendimentos residenciais destinados à terceira idade. No Reino Unido, há vários grupos estudando cohousing-sênior, com o objetivo de incorporar algumas de suas características revolucionárias no mainstream dos setores da construção e locação. E agora o Brasil, a partir do projeto “Vila ConViver”, recebe sua primeira cohousing–sênior, já em andamento.